Macondo fica aqui e ali. Nosso ponto pacífico, nossa linhagem de solidão. Pode ser seu quarto, pode ser que não. É lugar grande, fora do mapa. Ache-me aqui quando quiser. Sente-se, estique as pernas e me fale de felicidade.
Amaranta Buendia
mail-me: amarantabuendiaa@yahoo.com.br
msn: andyramona@hotmail.com
Como ele disse que seria, nada volta ao normal. Vira outra coisa. Os últimos meses foram atribulados e agora eu vejo tudo virando essa 'outra coisa'. Nem sempre deixo todo mundo bem, mas sei que tento. Nem sempre tenho tudo sob controle, mas disso eu já sabia. Não aprendi a jogar e uso cartas marcadas e experiências remotas vividas num momento ou outro. Todos carregam marcas. Tatuagens invisíveis. Não se apaga passado com soda cáustica. O que corrói é o que você não tem resolvido. O que você deixa pendurado no varal não seca.

[André, Vini, eu]

[eles estão impressos em mim, pra sempre]
[sinto sua falta, Andra]
Clarice diz verdades. Isso deveria bastar, pelo menos fazer pensar que eu não quero uma vida morna, que eu quero sempre estar em cólera.
"Amanheci em cólera! Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece. E nem ao menos posso fazer o que uma menina semi- paralítica fez em vingança: quebrar um jarro. Embora alguma coisa em mim diga que somos todos semi-paralíticos. E morre-se, sem ao menos uma explicação. E o pior - vive-se, sem ao menos uma explicação. [...]"
Ela queria dar girassóis, num dia assim, como hoje, de sol. Ele lembra aqui e ali. Tem memória vaga e seletiva. Tem olhos que queriam ser verdes, tem pele pintada, mãos firmes. Tem memória vaga e com falhas. Mas ela lembra dele não esquecer dos dias bons, dos dias que virão. Há sempre o que escolher no caminho, girassóis ou vida.


[você é de lua?]

[Frank Miller. Sin City vem aí.]

[Hollow, de Luke Chueh]

[pra não perder o hábito...]
"Eu não tenho tempo, eu não sei voar. Dias passam como nuvens, em brancas nuves e eu não vou passar. Eu não tenho medo, eu não tenho tempo, eu não sei voar."
[Zeca Baleiro em Não Tenho Medo]
Desmontar a casa e o amor.
Despregar os sentimentoos das paredes e lencóis.
Recolher cortinas
após a tempestade das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.
Empilhar livros, quadros,
discos, remorsos.
Esperar o infernal
juízo final do desamor.
Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
- pareciam se amar tanto!
Houve um tempo: uma casa de campo,
fotos em Veneza, um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.
amou-se um certo modo de despir-se,
de pentear-se.
Amou-se o sorriso e um certo modo
de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.
No entanto o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos,
malas desesperadas, soluços embargados.
Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor?
Fartou-se o amor?
O amor riu e tem pressa de ir embora,
envergonhado.
Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve ou na neblina?
Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.
Aqui ainda não está o amor que cura,
que esquece, que transforma saudade em memória.
Mas ele virá, o tempo.
[Affonso Romano de Sant'anna - Separação]
:.:para pensar hoje:.: Viver com uma imensa e orgulhosa calma; sempre para além. - Ter e não ter, arbitrariamente, os seus afectos, o seu pró e contra, condescender com eles por umas horas; montar sobre eles como em cavalos, frequentemente como em burros; - é que se deve saber aproveitar a sua estupidez tal como a sua fogosidade. Conservar os seus trezentos primeiros planos; também os óculos escuros; pois há casos em que ninguém nos deve olhar nos olhos e muito menos ainda nas nossas «razões». E escolher, para companhia, aquele vício matreiro e sereno, a cortesia. E ficar senhor das suas quatro virtudes, a coragem, a perspicácia, a simpatia, a solidão. Pois a solidão é entre nós uma virtude, como tendência e impulso sublimes do asseio que adivinha como, no contacto de homem para homem - «em sociedade» - tudo é, inevitavelmente, sujo, Toda a comunidade nos torna de qualquer modo, em qualquer parte, em qualquer altura - «vulgares».
[Friedrich Nietzsche, in Para Além de Bem e Mal]
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Há coisas que só servem se forem felizes. Não de outra maneira. Desculpe o mau jeito, a saída brusca, a batida da porta. Todos ficaremos bem assim. Melhor assim.
Quase que só há estrelas. Ela se deixou deitar na grama e ficou olhando o céu. Há mais estrelas que possamos imaginar. Não cabem em frases. Ela e seu gato Miguelito e o céu de estrelas. Há momentos que ainda não aconteceram, mas deveriam.
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Irrequieto no dicionário quer dizer uma coisa: que não consegue manter-se imóvel; desassossegado, agitado; que se agita sem cessar; buliçoso, turbulento; que se caracteriza por ser extremamente ativo ou indagativo. Na poesia quer dizer a mesma coisa de outro jeito:
Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
Todas as coisas se gravam para sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
Destelho as casas penduradas na terra,
Tiro o cheiro dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
A rua estala com os meus passos,
E ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico soldado vencido,
Não posso amar ninguém porque sou o amor,
Tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
E a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
E que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo,
Nada me fixa nos caminhos do mundo.
[Murilo Mendes]